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O sentar e a escrita, o inadequado que não compromete apenas a postura.

A escrita, numa vertente sensório-motora, é muito mais do que pegar num lápis. A sua preparação começa desde muito cedo num conjunto de explorações, modificações e aquisições que condicionam o seu desempenho. 

O movimento de abrir e fechar a mão começa na amamentação. É aqui que são criados os circuitos neuronais iniciais para o agarrar voluntário. Quem é mãe, já se apercebeu que na amamentação existem determinados movimentos do bebé padronizados? São esses mesmos que merecem ser analisados. Quando a criança abre a boca a mão abre, quando succiona a mão fecha e quando deglute a mão volta a abrir? O posicionamento da língua vai tendo oscilações que condicionam o posicionamento das mãos e o modo como a cabeça está posicionada influenciará de igual forma.

Com o passar do tempo estas “reações” serão menos evidentes, moduladas pelo desenvolvimento eficiente do bebé em fases como o controlo da cabeça, levar as mãos à linha média central e sentar com o cruzamento da mesma, onde estas ditas “reações” deverão ser inexistentes. 

O sentar, em si e efetivo, é fundamental para um padrão de escrita bem-sucedido, e compreendendo desde já a importância das suas aquisições prévias, torna-se relevante salientar que todos os estadios sensório-motores funcionam como métodos preparatórios para a escrita, onde o gatinhar revela uma pertinência incrível no processo, todavia iremos incidir no sentar e nos tipos de pega em ferramentas de escrita, e em aspetos práticos, neste artigo.

Criança a escrever “mão na cabeça” contralateral à pega

O que é observado:

  • Postura assimétrica e flexora anterior combinada com flexora e extensora lateral.
  • Punho em posição de pronação. 

O que pode ser condicionado: 

  • Postura flexora de cabeça e escapular numa posição de sentado inadequada onde competências como a orientação espacial, o cálculo e o planeamento podem ser questionáveis de desempenho. 
  • Postura assimétrica dos hemicorpos onde podem existir dificuldades atencionais, visuo-construtivas, percetivas e de consciência fonológica. 
  • Pega em pronação com tendência ao padrão flexor inclusive de dedos e de difícil dissociação condicionando tarefas como abrir uma porta, despir um casaco, abrir uma tampa e até atar os atacadores. 
  • O padrão flexor dos dedos pode aumentar o padrão flexor oral, as designadas sincinesias, onde numa atividade de recorte, por exemplo, o aumento do padrão flexor para o cortar aumenta o encerramento labial e, por vezes, a mão oposta “imita” a sequência de movimentos. Na prática pode afetar a correta articulação de fonemas, grupos consonânticos, discriminação auditiva de pares mínimos ou até funções como o beber de uma palheta e soprar um balão. 

Deixamos aqui alguns “exemplos” de posicionamentos de sentar e que podem estar condicionadas outras competências.

Para além destas posturas inadequadas e que implicam outras competências em défice, e não apenas motoras, o tipo de pega, e conforme mencionado acima no exemplo, também poderá condicionar o padrão de escrita. Segue um exemplo. 

Pega do lápis em pronação digital

O que é observado:

  • Os dedos movem-se juntos em simultâneo numa dissociação de punho-dedos e dedos entre si mínima. 
  • Por vezes, desvio cubital. 

O que pode ser condicionado: 

  • Esta pega faz parte do desenvolvimento, entre os 2 e 3 anos, acima disso é que pode ser considerada red flag. 
  • A mínima dissociação condiciona tarefas como abrir um frasco, apertar fechos para vestir umas calças e até tarefas de grafomotricidade como o desenho da figura-humana. 
  • Conforme descrito acima, as designadas sincinesias podem surgir. Em paralelo, na prática pode afetar a correta articulação de fonemas, grupos consonânticos, discriminação auditiva de pares mínimos ou até funções como o assobiar, mastigação/deglutição de determinadas texturas e o próprio padrão respiratório. 

Deixamos aqui alguns exemplos de pegas que podem ser red flags a partir da idade assinalada.

Cada criança é uma criança e toda a sua individualidade deve ser respeitada. A literatura descreve as caraterísticas afetas a determinados padrões, contudo uma avaliação criteriosa e metódica é a nossa recomendação, pois o sucesso de uma intervenção depende deste processo. 

Em concomitância algumas valências são sugeridas para melhorar o padrão de escrita assim como áreas fundamentais como a Integração de Reflexos/ Sensorial, Neurovisual e o Ensino Especial. 

Artigo desenvolvido por Sónia Silva.